Antonio Miranda, três poemas
Enviado em 6 de Junho de 2009
Publicado por Cláudia Cordeiro | Enviar por e-mail
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MEU PRIMEIRO AMOR
“A vida que se espera em fim de tudo”
Basílio da Gama (1601)
1.
Um corpo ereto, excitado,
na revelação de sua plenitude,
pela primeira vez.
Na puberdade, um susto!
Corpo a corpo, cobrindo-se,
descobrindo-se, brindando-se,
despindo-se: temor, tremor.
Armas ensarilhadas,
virilhas em chamas
— proclamas de amor,
precipitadas;
— fereza da ira, ternura e beleza,
ímpeto.
Acossado, assustado:
arde nas entranhas,
estranhas emoções.
Cego desejo que se nega e renega,
sem remissão nem culpa, engano;
fingimento. Justo quanto belo,
ser-sendo.
Que nome tinha aquele amor de momento?
Aquele encantamento furtivo!
2.
Como Rinaldo, no “Orlando Innamorato”
(sec. XVI) do conde Matteo Boiardo,
sempre fugi de quem me amava,
só amava quem fugia de mim.
O amor tem faces e disfarces
cruéis.
Amava-se, mas nem era amor.
Fulgor, estertor. Talvez, prazer
e dor, mas tão intenso! Tão forte,
definitivo em sua fatuidade.
Princípio-fim, perquirição: a sorte,
“um golpe de dados não abolirá o azar”.
Fatalidade.
3.
Por que as pessoas se emparelham?
Mas continuam sós. Quanta renúncia!
Que as atrai, que as separa?
Espelho em que outros se vêem
(mas estamos ocultos).
Meu primeiro amor,
rumino e revivo:
é a mente que inflama o corpo,
é o corpo que envilece a mente?
Mas, a certeza
de ser útil pelo prazer.
ANTES DE NASCER, EU OUVIA
Antes de nascer, ouvia e gravava,
sem entender: gritos, buzinas, canções.
Sem consciência do mundo, eu gravava.
Sons em movimento, eu inteligia?
era o alimento que vinha, ou tardava,
anunciado pelos passos, predizia?
Eu me saciava e não sabia, mas
havia, sim, havia, o esperar, e
uma certeza de que algo viria.
E eu me alimentava, sem comer;
sem saber, eu me satisfazia.
E ouvia, sim, eu ouvia e entendia.
Faço a regressão, vou em busca
do entendimento que não tinha,
mas sabia, sem saber, eu sabia.
Tento decifrar o que ficou gravado.
Não sei o que é, Mas o que não sei
molda tudo o que sei, e o que serei.
Minha mãe triste, — eu sentia!—,
minha mãe aflita estampada
em minhas entranhas, mãe-filho.
Ainda estamos juntos, depois da ida
num eco sem som, decifrando sons
extintos, indeléveis, tatuados na memória.
Memória física, em códigos que
eu não domino, que me domina.
Como Champolion, tento entender-me.
21.09.2008
EU, KONSTANTINOS KAVÁFIS
DE ALEXANDRIA – X
X
“Morreste aos dezessete anos, de prazer.”
Estou livre, contigo, meu entranhado amigo,
livre de convenções comezinhas, moralistas:
contemplo teu rosto pálido, imberbe,
entre flores brancas; lívido me encontro
e te resgato, sem nenhum recato,
para meu deleite e encanto, póstero.
Comovido, sem o alarde do pranto,
com o entusiasmo contido, suspenso,
pois o entusiasmo em excesso encandila
e, se falta, aniquila, é marasmo.
Te beijo na despedida, sem que me vejam.
Eu nem te conhecia, mas teu corpo
agora me pertence, mesmo ido, sempiterno.
Extraído da obra EU, KONSTANTINOS KAVÁFIS DE ALEXANDRIA. Brasília: Thesaurus, 2007.
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